Como pensa um compositor? #textocolaborativo

Como pensa um compositor? #textocolaborativo

Vou começar falando de 1997.

Passaram-se quase vinte anos e ao fazer essa continha básica de matemática daquele ano para cá me senti um verdadeiro “ancião”, mas considero que foi o começo da minha vida de compositor.

O grupo Titãs lançou o Acústico MTV e minha mãe me presenteou com aquele álbum que viria a se tornar um dos mais importantes da história do rock nacional. Eu escutava aquele disco umas quatrocentas e vinte sete vezes por dia. Minto! Acho que eram umas quinhentas e quarenta e duas.

Certa noite eu peguei o encarte do CD e comecei a ler com extrema atenção aquelas vinte e poucas letras. O Pulso ainda pulsa? As flores tem cheiro de morte? Nem cinco minutos guardados dentro de cada cigarro?

Como eles conseguiam escrever tudo aquilo? Fiquei extasiado com aquele lance de escrever e queria fazer igual.

Foi aí que eu decidi aprender a tocar violão e começar a escrever as minhas próprias “letras”. Eu escrevia todos os dias. Não estou falando que eram versos de qualidade, e tão pouco músicas capazes de serem consideradas caras de uma geração, mas de alguma forma foram os primeiros passos para que eu quisesse desenvolver aquela arte para o resto da vida.

O incrível é que ao contrário da maioria das coisas do mundo, não há uma “regra” para começar uma composição. Já terminei de escrever músicas em quinze minutos, já demorei anos para finalizar uma canção, já comecei pela melodia, já comecei pela letra, já usei técnicas de um idioma alienígena para compor a melodia vocal e também já escrevi com parceiros… Não há o “certo”. O que aprendi é que a composição não deixa de ser um exercício e quanto mais se compõe, melhor se compõe.

O ato de pegar seu violão, uma caneta surrada, um caderno de vinte matérias cheio de orelhas e materializar o que se sente sob forma de melodia (assim que componho, não me julguem) ao meu ver é a melhor forma de desabafo, uma das mais singelas formas de exteriorizar sentimentos, sejam eles felizes, tristes, conflituosos, apaziguadores, positivos, pessimistas, românticos…

Não há nada mais prazeroso do que ouvir uma pessoa que “você” nunca viu na vida cantando uma canção que “você” criou no seu quarto com o chão repleto de papéis amassados e rabiscados. É o mais claro sinal que os pensamentos fizeram sentido para outro alguém e que você não estava necessariamente sozinho naquele quarto.

Há alguns anos eu assisti uma entrevista da Pitty na qual ela dizia que o maior sucesso da vida dela foi escrever sua primeira canção. Lembro que achei aquela declaração absurdamente cafona e de falsa modéstia.

Hoje vejo que ela estava complemente correta. Ao terminar de escrever uma canção o recado passa a ser amplificado para alguém, para ninguém, para o mundo e toda essa liberdade de certa forma é o verdadeiro sucesso que vai muito além das top fives da rádio ou do tema de abertura da novela.

Compor é o ato do compositor mostrar uma visão sincera daquilo que se pensa, de falar o que se quer falar sem ter o compromisso de ser entendido. Acho que é isso…

Esse texto foi escrito por um de nossos colaboradores e compositor Fabio Gabriel uma pessoa com inúmeras qualidades e canções, quer conferir de perto não deixe de segui-lo:

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E como não poderia faltar é hora de ouvir Fabio Gabriel!

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